Belém, Destinos no Brasil, Gastronomia
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Só Belém me conquistou assim! #Parte1

Manu,
Estamos numa paradinha pra cortar canarana da margem pros bois de nossos jantares. Amanhã se chega em Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por este mundo de águas. Porém me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrace em frente das mangueiras tapando o teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí. Você que conhece mundo, conhece coisa melhor do que isso, Manu? (…)
Belém eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto esta confissão esquisita mas verdadeira que faço de vida sexual e vida em Belém. Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim…
Um abraço do Mário.

Mário de Andrade
(Carta escrita ao poeta Manuel Bandeira durante viagem à Amazônia, em 1927)

Fazia bastante tempo que eu planejava ir à Belém para um tour gastronômico. Em 2015, a capital paraense recebeu o título de Cidade Criativa da Gastronomia, concedido pela UNESCO. Eu precisava “comer” essa cidade, entendem?

Em junho desse ano, finalmente fui pra lá e, a partir de então, ela se tornou a minha cidade favorita do país!

“Quero Belém como se quer um amor.”

Gastronomia Paraense

A culinária do Pará tem bastante influência indígena, africana e portuguesa. Os ingredientes básicos são oriundos da exuberante natureza da Amazônia, como camarão, caranguejo, mariscos, peixe, aves, carnes de caça, pato, macaxeira (em seus diversos formatos), coentro, chicória, pimenta de cheiro e o jambu que treme treme treme na boca. Não tem como não se apaixonar!

Tem frutas para todos os paladares! Vai do azedinho do cupuaçu ao doce da pupunha. Aliás, você sabia que pupunha – sim, a mesma planta que dá o palmito – também é fruta? Eu não!

Ainda tem taperebá, bacuri, mangaba, uxi, e provavelmente muitas outras que não conheci. São sabores marcantes, inconfundíveis, e o mais legal de tudo: sabores novos no paladar! Que coisa boa é comer uma coisa diferente de tudo que você já comeu, né não?

E não são só os sabores, os formatos também são inusitados. Vejam que coisas mais lindas essas frutas!

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fruta

Não podemos deixar de falar da “prata da casa”, o açaí! De acordo com as Centrais de Abastecimento do Pará (Ceasa/PA), o açaí é a fruta mais exportada do Estado. No entanto, existem muitas diferenças de consumo em Belém e no resto do país.  No Rio Grande do Sul, e na maioria dos estados brasileiros, o açaí é misturado com diversos ingredientes, como banana, guaraná, mel, granola, leite condensado, etc. Mas lá, ele é servido purinho, apenas batido, e geralmente acompanhado de um prato salgado. Eu nunca gostei de açaí por aqui, e lá o sabor é outro! Muito mais gostoso!

É uma infinidade de iguarias naturais que encantam os turistas (a cidade estava cheia deles!), e fazem os moradores da cidade morrerem de orgulho. A gente viu isso em todo mundo que conversou: uma felicidade imensa em ser paraense.

Eu to saudando a mandioca!

mandioca

Passeando pelo Mercado Ver-o-Peso (mais sobre ele no próximo post!), você começa a ter uma ideia da quantidade de produtos que a mandioca provê, como diversas farinhas, tucupi e maniva (a folha da mandioca), principal ingrediente da maniçoba (vou falar dela mais adiante).

Das farinhas retiradas da mandioca, a mais apreciada por lá para fazer a tradicional farofa é a farinha d’água. A farinha de tapioca (de diversas espessuras) vira a tapioca de frigideira, mingaus, beijus, broas, entre outras diversas coisas que eu não faço nem ideia. Comprei uma farinha de tapioca grossa que resultou em um delicioso “bolo podre paraense“. Ainda tem puba, sagu e a goma!

Tem também o tucupi, caldo amarelo extraído da mandioca, que dá um sabor inconfundível a diversos pratos típicos da região, como o tacacá, o pato ao tucupi e a caldeirada paraense. Trouxemos algumas garrafas pra casa e já tá quase acabando. Ainda não sei como vou viver sem tucupi na minha vida!

Bem, depois da entrada, vamos ao prato principal.

Ficamos (só =/ ) quatro dias em Belém. Hoje, vocês vão ver como foi nosso primeiro dia! 🙂

Há 10 anos eu conheci um paraense na noite portoalegrense, o Médici, e ele foi um baita guia na nossa jornada gastronômica por lá. O Médici administra as contas do Instagram Restaurantes BelémMenos de 20, além de ter uma empresa que trabalha com comunicação e gastronomia, a Koentro. Ou seja, não poderíamos estar melhor ciceroneados!

Perguntei pro Médici onde comer o melhor peixe com farinha e açaí (a típica maneira de comer o fruto na cidade), e ele nos convidou pra primeira grande experiência da viagem: a casa da sua mãe!

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Direto do aeroporto, fomos recebidos pela queridíssima Vera, que fez a gente se sentir em casa, serviu um almoço incrível, contou histórias e falou muito sobre o orgulho de ser paraense.

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Teve Pirarucu defumado e Gó (peixe) fritos, arroz, farofa na manteiga (a melhor farofa que comemos em Belém!), açaí e farinhas d’água e de tapioca. Melhor impossível!

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Saindo de lá, deixamos nossas coisas na EcoPousada Muriti (um ótimo custo-benefício!), e seguimos para a Estação das Docas.

Estação das Docas

Em 2000, o antigo porto fluvial em Belém deu lugar a um belo espaço gastronômico e de convívio, a Estação das Docas. Um dos cartões postais da cidade, a Estação fica localizada à beira da baia do Guajará, e tem 500 metros de extensão voltados para orla. Passear por lá é um programa perfeito para um fim de tarde na cidade.

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O espaço comporta três armazéns e um terminal para embarque e desembarque de passageiros. Por lá, você encontra restaurantes, bares, sorveterias, lojas de roupas e artesanato regional.

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Por dentro da Estação das Docas

Amazon Beer

Localizada na Estação, a Amazon Beer é uma cervejaria que produz bebidas com ingredientes locais. Chopps de taperebá, açaí, bacuri… vale a pena experimentar todas as opções!

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A cervejaria tem um espaço externo que fica bastante cheio no fim do dia, é um lugar bem animado e com opções deliciosas no cardápio também. Pedimos um bolinho de pato no tucupi que estava muito delicioso, super bem recheado. Recomendo!

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Cada chopp custou R$ 7,90 e os bolinhos (porção com 8 unidades) custaram R$ 36.

Cairu

Passeando por dentro das Docas, você encontra uma das sorveterias mais famosas do Brasil, a Cairu. São muitas opções de sorvetes feitos com todas aquelas frutas que Belém tem a oferecer. Provamos um dos clássicos da casa, o de tapioca, que tinha pedacinhos graúdos da farinha. Muito muito bom!

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Uma bola de sorvete custou R$ 7,50.

Tacacá da Cesário Alvim

Anoiteceu… era hora de degustar o tradicional tacacá paraense! Por indicação do Médici, fomos no Tacacá da Cesário Alvim.

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Gente, preciso falar pra vocês que a minha relação com o Tacacá foi amor à segunda provada. Eu já tinha experimentado o tacacá em Porto Alegre, em um restaurante paraense, mas não tinha achado muito legal.

Mas sério, minha opinião mudou no primeiro gole: TACACÁ É VIDA! É muito, muito bom!

Olhaí eu e a Isadora, do canal Gastronomismo, felicíssimas com nossas cuias de amor!

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Pra acompanhar, um guaraná Garoto (os pontos de venda de tacacá não vendem bebidas alcoólicas).

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Dooooooce!

O tacacá custou R$15.

Buiagu

Tava achando que não ia ter mais comida? Aline e Vinícius não estão pra brincadeira em tour gastronômico… kkk

Depois do tacacá, encontramos com o Médici e fomos conhecer o Buiagu, restaurante do chef Roberto Hundertmark, que fica localizado dentro do belo hotel Atrium Quinta das Pedras.  Do Tupi, Buiagu significa “natural de terras quentes”, e a proposta do restaurante é apresentar pratos com ingredientes regionais de forma criativa e autoral.

Quem assina o cardápio de bebidas é o meu amigo Médici e, por sugestão dele, começamos o jantar com o Ambaró (R$22), drink de taperebá, limão e cachaça de jambu.

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Tremeu!

Decidimos pedir várias coisinhas do cardápio para dividir. Primeiro, um crocante de tapioca com geleia de tomates e carne assada desfiada (R$ 26).

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Depois foi a vez do mix de bolinhos (R$ 26): bolinho de arroz, feijoada com rabada, macaxeira com queijo do marajó, piracuí (um peixe da região), coxinha de barriga de porco e kibe de maniçoba (eleito o favorito de todos). A maniçoba é um dos principais pratos típicos da região. O prato é como um ensopado de carnes defumadas e salgadas junto com a maniva (a folha da mandioca), cozido por diversos dias. (Aguarde que ainda vai ter mais maniçoba nos próximos posts!)

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Teve ainda um pirão de arraia defumada (R$ 20). Eu não tenho palavras para descrever o sabor. Muito muito muito muito bom!

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E, por último, um nhoque de macaxeira com molho de moqueca e chips de banana da terra.  Derretia na boca!

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Nhoque de macaxeira: esqueci de anotar o preço =/

O jantar foi pontuado por uma longa conversa com o chef Roberto, que falou bastante sobre o cenário gastronômico local. Além disso, ele trouxe uma farofinha de banana feita especialmente pra gente experimentar.

Comida boa e preço justo. Baita experiência!

E esse foi só o primeiro dia!!

Nos próximos posts… mais tacacá, tucupi e jambu, e também rio, árvore e fazenda de chocolate. 😉

Para o dia 2, clique aqui.
Para o dia 3, clique aqui.
Para o dia 4, clique aqui.

“É inconcebível o amor que Belém despertou em mim!” <3

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1 comentário

  1. Tiana Gimenez Teló diz

    Estou amando teu blog! Teus textos fazem com que viaje junto! Beijos amiga querida e muito brilho no teu caminho!!

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